Sessão fotográfica num iate em Lisboa e Cascais
Data de publicação: 13 Aug 2025 | Atualizado: 10 Sep 2026Este artigo reúne aquilo que me perguntam depois de o iate já estar reservado. Devia ser ao contrário, mas raramente é, por isso juntei tudo num só sítio.
O fotógrafo ocupa um lugar
Começo pela parte desagradável. A bordo não existe "ainda cabe mais um". Existe um número, e está escrito.
Quantas pessoas podem ir a bordo não é o proprietário nem o operador turístico que decide, é a administração marítima: cada embarcação tem a sua lotação de segurança, o número de pessoas a bordo inscrito nos seus documentos, e ninguém o pode alterar no dia da saída.
O número 12 também aparece nas regras portuguesas, mas não quer dizer "mais do que isto não pode". O Decreto-Lei 149/2014 usa os 12 passageiros, sem contar a tripulação, como a linha a partir da qual mudam as exigências: a lotação de segurança passa a ter de ser constituída por inscritos marítimos, a embarcação não pode afastar-se mais de 3 ou de 12 milhas da costa consoante o tipo, e só pode navegar entre o nascer e o pôr do sol. Ou seja, mais de 12 convidados não é uma proibição. É outra embarcação, outra tripulação e outro percurso.
Ou seja, o fotógrafo tem de ser contado entre os convidados desde o início, ainda na altura de escolher a embarcação.
A regra prática é uma só: peça ao operador turístico que confirme quantas pessoas podem ir a bordo incluindo o fotógrafo. Uma mensagem, e o assunto fica fechado antes da reserva.
O operador turístico tem de saber com antecedência

Isto não é formalidade nem cortesia. O operador turístico (o capitão, ou quem organiza a saída) responde por tudo o que acontece a bordo e tem de saber quem vai antes de largar. O fotógrafo é uma linha própria nessa lista, não um "mais um convosco".
Por isso escreva-lhe logo na reserva: vamos levar um fotógrafo. Resolve-se num minuto, enquanto a embarcação ainda não está cheia.
Rio ou oceano são 2 tipos de sessão diferentes
É o erro de planeamento mais frequente. "Um iate em Lisboa" e "um iate ao largo de Cascais" soam à mesma coisa, mas na água são condições diferentes, balanço diferente e, por vezes, tempo diferente.
O Tejo dentro da cidade ainda não é mar: é uma foz larga, protegida por terra dos dois lados. Quanto mais se sobe o rio, mais calmo fica. Debaixo da ponte 25 de Abril a ondulação é bastante menor do que dentro da própria baía de Cascais. Cascais já é o início da água aberta. E mais para fora, passando o Guincho e o Cabo da Roca, o vento e a ondulação têm opinião própria, que nada tem a ver com o plano do dia.
Para as fotografias, essa diferença resume-se a uma coisa simples. No rio há calma com mais frequência: dá para construir o enquadramento sem andar a segurar um copo ou o cabelo. Em água aberta isso acontece menos vezes. As imagens ficam mais enérgicas, mas o retrato tranquilo no convés pode não existir de todo. Nenhuma das duas coisas se garante: quem decide é o dia.
A pergunta que vale a pena fazer ao skipper antes de largar: onde vamos estar exatamente e que ondulação se espera ali. Não "vai estar bom tempo", mas a zona e a ondulação. É uma frase, e decide metade do que vai sair nas fotografias.
Um parêntesis sobre os veleiros. A imagem por que se sai num veleiro é a das velas abertas. Só que abri-las exige vento, e é aí que está a contradição: quanto melhor a imagem, mais a embarcação acelera. Numa saída minha, no momento exato em que se abria a vela grande da proa, o iate ganhou velocidade perigosa e foi preciso recolhê-la de imediato.
Por isso "fazemos uma foto com as velas abertas" não é um ponto do plano. É uma decisão do skipper naquele minuto, e depende do vento daquele dia. Vale a pena dizer-lho antes, e não quando as velas já estão a subir.
Quando sair
Aqui há 2 perguntas: o mês e a hora do dia. Vale a pena pensar nas duas, porque em Lisboa as respostas não são as que parecem.

O mês
O vento médio mais forte em Lisboa é precisamente no verão: julho dá 15,3 km/h contra 11,1 em novembro. Mas as rajadas fortes distribuem-se ao contrário ao longo do ano. Os dias com rajadas de 60 km/h ou mais são menos em setembro, 1,3 por mês, contra 4,2 em março e 3,9 tanto em janeiro como em dezembro.
Ou seja, setembro tem as rajadas mais raras do ano, a água ainda está quente e o pôr do sol fica por volta das 20:00 e não das 21:00. Isto ainda não prova que setembro seja o mês mais calmo na água: os números descrevem o vento numa estação em terra e não dizem nada sobre a ondulação nem sobre um percurso concreto. Como ponto de partida para planear, porém, setembro é uma referência razoável.


Sendo honesto quanto aos números: são as normais climatológicas do IPMA para a estação Lisboa / Gago Coutinho, e o próprio instituto assinala ali ao lado que a série de observações de vento é curta, 12 anos e não 30. Além disso, a estação fica em terra e a uma cota mais alta, por isso aplicar estes valores às condições na água exige cuidado: medições comparáveis na própria costa não as encontrei. A ordem de grandeza está certa; precisão é que não se deve esperar daqui.
A hora
No verão sopra aqui a nortada, o vento de norte que chega por volta das 2-3 da tarde e se mantém até ao fim do dia. Na época anda nos 15–20 nós, e junto ao Cabo da Roca as rajadas chegam aos 30. É também ela que salva do calor, tirando alguns graus à temperatura que se sente. Mais sobre este vento no artigo "Nortada" na Wikipédia.
Por causa dela, manhã e fim de tarde na água são 2 coisas diferentes. Até à hora de almoço, enquanto a nortada ainda não entrou, a água costuma estar mais lisa e a luz é limpa e um pouco dura. Perto do pôr do sol aparece aquela luz por que toda a gente sai, e com ela o balanço.
Quanto ao pôr do sol em si: em Lisboa varia quase 4 horas ao longo do ano. O mais tarde é às 21:07 de 28 de junho, o mais cedo às 17:16 de 7 de dezembro. Uma saída "para o pôr do sol" em junho é já noite em vez de jantar; em outubro cabe sem problema depois do trabalho. Vale a pena confirmar para a data em causa antes de combinar a hora: tabela do nascer e do pôr do sol em Lisboa no timeanddate.com.
De onde sair
A marina não decide apenas o caminho até ao cais. Decide o que vai ficar atrás de si no enquadramento e até que tamanho de embarcação cabe ali fisicamente.
- Marina de Cascais é a maior desta costa: 650 lugares, embarcações até 36 metros e saída direta para água aberta. É daqui que partem os iates grandes e as saídas ao longo das arribas.
- Doca de Alcântara tem 440 lugares, dentro da foz, mesmo por baixo da ponte. A cidade fica ao lado e a água é calma.
- Doca de Belém tem 194 lugares e as embarcações mais pequenas das três marinas: as fontes oficiais apontam um limite entre os 12 e os 15 metros. É o sítio mais bonito para embarcar, mas um iate grande simplesmente não entra.
Daqui sai a conclusão prática. Se o que tem na cabeça é uma embarcação grande com convés para convidados, isso é Cascais ou Alcântara, e não Belém, por muito bem que Belém apareça nas fotografias tiradas de terra.
Quanto custa

O charter e o fotógrafo são 2 valores separados, e contam-se de maneiras diferentes.
Um charter privado em Lisboa começa à volta dos 300–400 euros por algumas horas numa embarcação pequena e sobe a partir daí com o tamanho do iate: os maiores, com tripulação e para grupos até 30 convidados, partem de uns 700 e tal euros mais IVA, e a saída ao pôr do sol costuma ser mais cara do que a de dia. Limite superior não existe: quem o define é a embarcação, não o percurso.
A minha parte conta-se à parte, e conta-se caso a caso. A razão é simples: na água não existe "hora de sessão". Se estamos 10 horas no mar, estou 10 horas no mar, mesmo que fotografe a sério em 3 delas. Por isso uma hora num iate não pode custar o mesmo que uma hora em terra, e reduzir isso à tabela normal seria desonesto para si e para mim.
Escreva-me a dizer que embarcação é, de onde sai e quantas horas estão previstas, e eu faço as contas. Os valores base das sessões normais estão na página de preços, e é daí que se parte.
Na mesma página está o resto: o mínimo de horas, quantas fotografias finais recebe e em que prazo, como se reserva a data e o que acontece se a saída tiver de mudar. Na água aplicam-se as mesmas regras, só que as horas contam a partir do tempo a bordo e não do tempo de fotografia.
O que acontece durante essas horas
Fotografo praticamente todo o tempo em que estamos na água. Mas sair da marina e regressar levam cerca de uma hora entre as duas coisas, mais ou menos isso num percurso curto pelo Tejo e mais do que isso se formos na direção de Cascais. Por isso o mínimo que faz sentido são 2–3 horas a bordo: de 2 horas, sobra cerca de 1 para fotografias.
Fotografamos fora e também na cabina: o interior de um iate grande dá muitas vezes imagens que no convés não se conseguem.
Mas não é uma sessão contínua: a bordo percebe-se muito depressa quando as pessoas estão a posar e quando estão apenas a viver aquilo, e a segunda coisa é sempre melhor.
Algumas coisas que vale a pena saber antes de sair.
- Calçado. Saltos na teca são proibidos em quase todo o lado, e não é capricho do operador turístico: deixam marca no convés. Leve algo raso e de sola clara, e descalço num iate fica ainda melhor.
- Roupa. Tecido leve, que o vento levante, é o que dá as melhores imagens, e na água em particular. Tudo o que é preciso segurar com a mão faz o contrário: nas fotografias vê-se sobretudo essa mão.
- Chapéu e protetor solar. Sim, aparece em todos os artigos, e continuam a esquecer-se. Sobre a água, ao sol direto junta-se o que a superfície reflete, e 2 horas no convés notam-se mesmo em outubro. Já agora: com chapéu, a imagem quase sempre melhora.
- Óculos. As lentes espelhadas escondem os olhos por completo. Em algumas imagens fica com estilo. Em todas, já não.
Onde isto mais se nota é nos trabalhos de produção. Para uma capa da revista WOW, em 2016, fotografei uma modelo num veleiro de grandes velas vermelhas: o vestido era tão comprido que, ao lado da vela, precisava de meio convés. Fotografámos enquanto a embarcação navegava entre ilhas, e a imagem que queríamos só saiu quando os restantes desembarcaram e o convés ficou livre.


Daqui sai uma regra mais larga do que um vestido: para uma imagem grande não basta a embarcação, é preciso convés livre. Numa saída partilhada nunca o haverá; numa privada, haverá exatamente aquilo que for combinado.

A imagem com o iate inteiro
O que quase sempre se espera de "sessão fotográfica num iate" é a imagem onde se vê o próprio iate. E essa é a única que não se consegue tirar de bordo: para fotografar a embarcação é preciso estar fora dela.
Logo, é preciso uma segunda embarcação. Já o fiz de 2 maneiras.
- Do tender, o insuflável que costuma vir atrás do iate. Alguém o conduz, eu dou voltas ao iate e fotografo. É a forma mais previsível, mas um tender não vai à água num minuto, por isso tem de constar do plano da saída.
- De uma mota de água, que é o que fica mais espetacular e só resulta com o mar quase liso. Com ondulação é perigoso, e a imagem também não sai.
As duas hipóteses combinam-se com o operador turístico antes. Nem sempre há uma mota de água a bordo, e pôr o tender na água a meio do percurso é um acordo à parte, não algo que a saída inclua por si.
Quando não é apenas um passeio
Uma sessão num iate quase nunca acontece sem motivo. A maior parte das saídas que fotografei tinha um: um pedido de casamento, um aniversário de casamento, uma data, a família que veio de longe e não voltará a estar reunida assim.
Um pedido de casamento na água tem uma vantagem sobre a terra: não entra nenhum estranho no enquadramento. E uma dificuldade: numa embarcação pequena o fotógrafo não tem para onde recuar, por isso combina-se tudo antes com o skipper, onde fica o casal, de onde fotografo eu e em que momento a embarcação vira para que fique a cidade atrás e não o porto.
Um iate grande já é outra história. Fazem-se lá aniversários, pequenos eventos de empresa, festas na água. A mesma linha dos 12 passageiros também se aplica aqui: a partir daí mudam as exigências quanto à embarcação e à tripulação, e a sessão muda com elas, passa a ser cobertura de evento e não retratos de um casal na proa.
O que não posso saber de antemão
O tempo na data em causa. Ninguém sabe, e este artigo também não: tudo o que está acima é sobre como funciona o ano por aqui, não sobre a quinta-feira em questão.
Por isso, o último ponto e o mais útil. Ao reservar a embarcação, faça 3 perguntas de uma vez ao operador turístico:
- quantas pessoas podem ir a bordo contando com o fotógrafo;
- para onde vamos exatamente, pelo rio ou para água aberta;
- o que acontece à saída se nesse dia o vento se levantar.
3 respostas, 1 mensagem. Depois disso pode combinar-se a hora e todo o resto com descanso.
Fotografo em Lisboa e em todo Portugal. Saiba mais sobre o meu trabalho: fotógrafo em Lisboa.

























